ato-memória massacre de acteal, rio de janeiro
em 1634, centenas de indígenas potiguaras são assassinados em uma capela de canguaretama, rio grande do norte. o episódio, conhecido como o massacre de cunhaú, um complô de holandeses e índios tapuias, índios brabos do sertão cooptados pelos muitos colonizadores europeus que chegaram por estas terras, é lembrado até os dias de hoje pelas comunidades indígenas do local, como a do vale do catu, em processo de reconhecimento indígena oficial somente neste século, tamanho o choque.
em 1997 na comunidade de acteal, no méxico, índixs totziles também se refugiam em uma capela dos paramilitares que sob a conivência do governo impõem suas vontades sob armas. 45 pessoas entre crianças, idosos e mulheres grávidas são assasinadxs ali dentro, em um massacre que durou 7 horas. há 12 anos vigílias são realizadas em todo mundo no dia deste massacre, 22 de dezembro, que de longe não é o primeiro que acomete similarmente desde os tempos coloniais às sociedades ancestrais latinoamericanas. o nome desta ação é etnocídio, negação totalitária e fascínora dos direitos de plena existência desses povos, que acontece sob a conivência dos governos, em um processo de ocupação econômica de regiões em que prevalece os direitos dos colonizadores, sejam eles por sua própria conta (pistoleiros contratados ou segurança privada - uma espécie de milícia) ou estimulados pelo governo federal através do processo de ocupação das fronteiras, como é o caso dos Kaiowá-Guarani no mato grosso do sul cuja etnia abrange de fato cinco países e dez estados brasileiros.
a semelhança dos massacres de acteal e cunhaú, ambos acontecidos dentro de pequenas capelas, não surpreende à luz dos inúmeros assassinatos que acontecem em disputas de terras e culturas. só no ano de 2008 foram registrados no brasil 60 assassinatos de indígenas, sendo a média nos últimos anos de 70 assassinatos por ano. a grande maioria (42) no estado de mato grosso do sul, sendo todas as vítimas do povo Guarani Kaiowá. dados que confirmam a continuidade da violenta realidade registrada nos anos anteriores. [1] é recorrente o extermínio de mulheres e crianças, assim como os estupros.
no méxico, a libertação dos paramilitares envolvidos no massacre de acteal à época do episódio aponta a técnica de guerra de baixa intensidade contra essas comunidades, como aqui no Brasil é a recusa de demarcação e a consequente venda de terras indígenas às grandes multinacionais, assim como o não-atendimento médico da funasa nas áreas "em litígio", ou mesmo, a dita guerra pacificadora travada no rio de janeiro na tentativa de camuflar seu verdadeiro objetivo: mais limpeza étnica, exclusão social, genocídio. de acordo com Sergio Cabral, governador do rio de janeiro, em matéria do jornal O GLobo (ed. 03/01/2010) são assassinadas em um período de 3 meses, na cidade maravilhosa, 36 pessoas a cada 100 mil habitantes. analisando melhor o tortuoso cálculo, através da população total do estado [2], ocorrem de fato, a cada 3 meses, aproximadamente 2218 homicídios (8872 anualmente), dos quais somente 3% são apurados. ou seja, impunidade quase que total.
lembrar os 12 anos de acteal é lembrar os 434 anos do massacre de cunhaú e o sofrimento cotidiano, ininterrupto, cada vez mais presente de nossas comunidades indígenas originárias e todos os povos oprimidos.
pachamama vive, viva yvy marane y!
foi com esse espírito que no último dia 22 de dezembro, no ano 2009 em frente ao consulado mexicano no rio de janeiro, um pequeno ato marcou a data. 45 velas acesas ao lado do nome e idade das 45 pessoas mortas em acteal. 2 anos, 8 anos, 65 anos, 11 meses de idade, a crueldade dos detalhes emocionou os transeuntes. mais de 600 folhetos circularam a história transcendental de nosso continente. distribuindo milho originário, alimento indígena sagrado cultivado há mais de 10 mil anos e que hoje encontra-se em risco de extinção, visto que dados [3] sugerem que mais de 53% do milho consumido no brasil no ano de 2010 será transgênico. plantando clandestinamente mudas de flores e árvores - uma significação vital frente a tanta morte - no canteiro em frente à embaixada, já privatizado pelas companhias ao redor, assim como as ruas e estátuas de nossas cidades e interiores. um personagem cego de bigode curto e chapéu coberto de medalhas, com a frase "governo mexicano" em suas vestes, caminhava como cego pela calçada da praia. e foi ajudado muitas vezes. mesmo com seus gestos e falas fascistas. uma cruz com a frase "12 anos de impunidade" simbolizava não o cristianismo que nos assolou com suas técnicas de comércio, apatia e consumo, e sim pelo respeito aos inúmeros tributos realizados simultaneamente naquele dia e hora em muitas partes do mundo, méxico, frança.. resignificando a vida perdida de tantos inocentes. ao final do ato, sob o sol escaldante, culminamos a nossa solidariedade com hermanos e hermanas de pachamama, com um ritual musical e espiritual, um índio brasileiro-colombiano iashaninca pronunciava o nome de cada uma das 45 vítimas batendo seu maracá. os sons das flautas, tambores e apitos fizeram com que os muitos consulados latinos ali instalados debruçassem-se pelas janelas, revelando a luta que segue cada vez mais forte e múltipla na des-calçada carioca.
[1] relatório de violência contra os povos indígenas 2008, Capítulo II: Violência Contra a Pessoa -> http://www.cimi.org.br/pub/publicacoes/1241621071_cap%20II.pdf
[2] estimativas do IBGE para a população do Rio de Janeiro em 2008: nota técnica -> http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/arquivos/2407_estimativas%20mrj%20em%202008.PDF
[3] milho transgênico avança e pressiona setor alimentício (Jornal O Estado de São Paulo / 21 de agosto de 2009) ->
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,milho-transgenico-avanca-e-pressiona-setor-alimenticio,422731,0.htm
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Data: 01-03-2011
Dono: Gallery Administrator
Tamanho: 21 ítens
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